segunda-feira, 27 de julho de 2009

Ora desta vez apeteceu-me fazer um desenho

Vamos assumir que esta sou eu, em situações normais.
(olhem para mim tão alegre e sorridente)




Pronto.

Agora...Esta aqui debaixo também sou eu mas desta vez numa situação extraordinária.
(reparem como a minha expressão se altera)



E é assim que a coisa se tem processado nos últimos dias...a minha inspiração sugada, sem dó nem piedade, pelo colorido sistema rodoviário.



quinta-feira, 23 de julho de 2009

Press Play

Faço uma merecida pausa no estudo dos sinais, das cedências e passagens, dos estacionamentos indevidos, e de todas essas matérias de elevado interesse, que, com alguma sorte, farão de mim uma condutora prudente e de pé leve. Uma pausa bem mais pequena que a que fez este blog, onde o pó se acumulou, criando pequenos coelhinhos de cotão, aqui e ali, por baixo de posts antigos. Poderia inventar desculpas, mais ou menos mirabolantes, para o abandono a que remetemos este nosso “espaço”. Poderia até dizer que nada de interessante aconteceu nos últimos tempos, o que seria uma escandalosa mentira…e que além do mais, nunca foi impedimento para que aqui se escrevesse, não fossemos nós adeptas das longas conversas sem assunto. Mas a verdade é que nos tomou de assalto um desinteresse pela escrita, uma espécie de gripe A da criatividade que pôs o Bolachas de quarentena, como se de um autocarro apinhado proveniente de Guadalajara se tratasse. Não nego, não foram poucas as vezes que por aqui vagueei, na esperança de que por magia aparecesse, neste exacto local, um post inteligente e com humor, ou apenas um dos dois vá…
Lamentações à parte, pode-se dizer que voltámos, agora que sabemos que existe pelo menos mais uma pessoa a ler-nos, para além daquele amigo a quem obrigamos uma consulta frequente e de quem ouvimos, deliciadas, os elogios sentidos, em troca de uma ou duas imperiais.
Pode-se esperar, então, um retorno aos dias áureos deste blog…e aos gastos em minis e tremoços.
Mas isso fica para uma próxima…que agora tenho de ir ali decorar limites de velocidade.

sábado, 20 de junho de 2009

La Mala Educacion


Decidi dar uma nova oportunidade a Almodóvar. Depois da sensação de perda de tempo que me tinha deixado “Kika”, achei por bem permitir a este realizador espanhol que me voltasse a surpreender, como tinha feito com “Tudo sobre a minha mãe” e “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Preparada física e psicologicamente para uma sucessão de cenários em cores berrantes e cenas homo-eróticas, prendi os cabelos com uma flor enorme e refastelei-me no sofá da sala com as janelas abertas em par. O calor estava a pedi-las. Durante todo o filme não consegui tirar os olhos do ecrã, muito por culpa, admito-o, de um Gael Garcia Bernal, moreno e semi-nu que se passeava, provocante, entre junkies e travestis mas, também por uma estória, deliciosamente filmada, que em nenhuma circunstância me fez desviar os pensamentos para o que iria fazer a seguir ou o que seria amanhã o almoço…Valeu a pena fazer as pazes com Almodóvar.

domingo, 14 de junho de 2009

Sardinhas & Manjericos


Numa romaria a seco iniciámos mais uma noite memorável, na noite que é desse santo do menino, do hábito e dos casamentos colectivos, padroeiro da nossa Lisboa. A verdade é que tenho um carinho especial por esta noite das marchas e da sardinha, da ginga e da cerveja. Dos abraços apertados dados a pessoas que naturalmente nos desaparecem e por quem sentimos uma saudade momentânea, quando mais magros, mais bonitos ou na mesma, se cruzam com o nosso alter-ego embriagado e sentimentalista. Gosto genuinamente desta noite que se quer popular, e em que há desculpa para conversas familiares com estranhos sobre ensaios do rancho da sociedade recreativa de Arcos de Valdevez, mensagens embaraçosas, danças frenéticas ao som de música ligeira espanhola, conversas brejeiras, gestos abusadores e inofensivas invasões da privacidade alheia bem como todo um rol de situações que, em situações normais, nos deixariam com as mãos a tapar a cara num gesto de vergonha incontrolável. Gosto de toda aquela agitação. Agitação nas ruas, nos outros e em nós próprios, impulsionada por um consumo exagerado de álcool que une trolhas e taxistas, vendedores de sardinhas e estudantes. Gosto do sentimento colectivo de festa e da necessidade geral de dizer mais que a conta, de deixar escapar verdades, vontades ou sentimentos, de meter a pata na poça, o pé na argola. Gosto desta noite por ser uma noite única, e incomparavelmente catártica, em que nos deixamos levar com a música e o reboliço das gentes, empurrados por caminhos apertados, de pés pesados e vontade flutuante, em que só de manhãzinha, chegados a casa de outro, damos conta que trouxemos na mala um conjunto de chávena e prato de uma qualquer marca de café de topo.

sábado, 30 de maio de 2009

Dias de Festa

Ontem o dia vestia-se de comemoração.
Preparei a minha melhor saia de padrão africano, calcei as sandálias de cunha bem grande, vermelhas e não as encarnadas que guardo para ocasiões mais formais, e coloquei nas orelhas os brincos dourados enormes que acompanham na perfeição o movimento das ancas em modo festa. Dei volume aos cabelos num gesto enérgico de baixar e levantar a cabeça, até ficar tonta, e domei apenas os caracóis mais rebeldes em zonas estratégicas. Meti-me no bólide com a minha crew, levando comigo na mala um tupperware para trazer uns rissóis, e rumei, na expectativa de uma festa em b.leza, à margem de cá. Enquanto o carro percorria os viadutos e as auto-estradas dos subúrbios, baixei o vidro para que o som alto das músicas mixadas se propagasse pela tarde quente de Primavera, em tom de alegre desafio. Passei indiferente pelos fóruns e centros comerciais, onde rapazes de ténis e boné da Puma, azul-bebé ou rosa pastel, conforme o grau de excentricidade, passeavam de mão dada com as namoradas de t-shirt curta a mostrar a tatuagem tribal, para orgulho do respectivo e indignação das mães, avós e toda uma geração de mulheres de família. Parei num parque de estacionamento quase deserto, entre nada e coisa alguma...Esperei com o resto do party people pelo pessoal dos subwoofers e do chão rebaixado que chegou a meio de uma conversa sobre gostos duvidosos e unhas de gel. A tarde já cedia à noite quando fui guiada por um bairro de casinhas baixas, carrinhas familiares e courts de ténis em que as paredes limpas não mostravam qualquer sinal de tags ou grafittis ilegais. Quando cheguei à festa, o aniversariante recebeu-me de sorriso rasgado e camisa Lacoste. Prossegui com a noite, alegre e educada, sem palavrões ou sons de balas perdidas, entre sorrisos, gestos cordiais e desejos de mais um ano com saudinha, alegria e tudo de bom se deus quiser. Comi saladas temperadas com vinagre inglês, petisquei cogumelos italianos, e cantarolei em conjunto músicas dos sempre loiros (bom, uma era morena) ABBA.
A noite ia a meio, quando descontraída, entre a primeira e a segunda caipirinha by bimby, pensei para comigo que, decididamente, aquela não era a margem sul que tão bem conhecia...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Hoje

Acordo invariavelmente despenteada e mal disposta, pés descalços no soalho gasto e dirijo-me desajeitadamente e com o passo pouco certo, até à cozinha. Mato a sede com uma caneca cheia de água, que bebo quase num golo. Espreito o dia pela janela da marquise e parece-me que ainda é cedo, volto para a cama. Não consigo dormir, mas prefiro ficar quieta no meu quarto às escuras. Permaneço assim, mais de uma hora. Começo ouvir o rebuliço do acordar da cidade. Lá fora nasce o dia, que promete ser quente e abafado. E aqui dentro mantem-se a incerteza e cultiva-se o desassossego do que me espera quando sair porta fora.






sexta-feira, 22 de maio de 2009

Queques de Laranja

Vou sentir saudades daquele restaurante na Lapa. Tão chique que sou, ou era, ou fui e vou deixar de o ser, agora que acabaram os almoços com os Noronha, os de Andrade, os Breyner e os Lobo Antunes, lado a lado como que almoça com um qualquer Silva.
A sangria branca e os croquetes da despedida, partilhados com as companheiras dos dias duros de trabalho árduo, souberam-me agridoce. O queque feito de nuvens de laranja espera, na cozinha, que o devore. Estou sentimentalista. Vão-me fazer falta as Carlotas, as Beneditas, as Pipas e os Fredericos de cabelo desgrenhado que selvagens corriam pelo restaurante gritando exigências às tias que são só amigas das mães. Vão-me fazer falta as incoerências da Dona Rosa Loira que ora servia bem ora servia mal, os mini-pratos de iguarias gourmet acompanhados de copos de água. A ausência, à hora de almoço, de senhoras finas de capacetes brancos, da rudeza chique da fala de Cascais e de vedetas de sexualidade alternativa vão dificultar imenso as conversas da tarde, tá a ver? Já para não falar da incerteza do amanhã e do receio que, logo agora que aprendi a prolongar o final de cada frase e passei a tratar as minhas amigas por você, me espere um regresso à negra fase dos tascos e do bife com ovo a cavalo. Vai ser difícil passar sem aquele restaurante na Lapa, agora que acabaram os trabalhos, os testes e as aulas, e o futuro aproxima-se a passos largos sem que se justifique tal urgência. Mas o que vai ser mais difícil nisto tudo é saber que no fim de um esforço imenso, não nos espera, paciente, prometedor e fofo, um bolo numa caixa.