Os dias ainda não estavam esta confusão de chuva e vento quando me debrucei da tua varanda para olhar quem passava. O sol brilhava com uma alegria contagiante como se o Inverno nos quisesse mostrar que não sabe só ser cinzento. Na minha cabeça ecoavam ainda o vinho branco e as ideias soltas, sobras de uma noite feita de discussões com aspirações metafísicas. Não me lembro de ter olhado a tua rua e ter visto o homem parado junto do marco do correio, nem tão pouco este último. Não me lembro de ter reparado neste sem fim de carros alinhados, nem nos estacionamentos em segunda fila. Lembro-me apenas de recordar essa noite, do dia antes. De sorrir das nossas tentativas para arranjar uma justificação para tudo aquilo que não tem justificação possível, como fazemos sempre nesses serões feitos das nossas histórias e das dos outros, contadas como os velhos contam as doenças, numa espécie de competição da desgraça. Fico sempre convencida de que não há melhor que a terapia amadora para encher de motivação o espírito mais abatido, porque no meio de todos os nossos dramas de telenovela mexicana há sempre a estória de um amigo de um amigo que, coitado, está muito pior que todos nós juntos. Faz-nos falta a desgraça alheia, como fazem os episódios daquela série dos médicos em que há sempre alguém querido que morre de algo incurável, para nos lembrarmos de dar valor ao que temos e a esta vida, que levamos... Quando me debrucei da tua janela para ver quem passava, não estava este tempo revoltado e irritadiço que incomoda guarda-chuvas floridos e sopra papéis pelo ar, nem tão pouco me sentia assim, tão de acordo com a previsão meteorológica.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Quintal
Acordei tarde e a más horas, período iniciado por volta das onze e meia da manhã e prolongado por aí fora até que não seja possível comer fatias douradas ao pequeno-almoço. Penteie como pude os cabelos revoltos por voltas a mais na almofada e sonhos que fariam corar Freud, e desci as escadas com pezinhos de lã, ao que escadas não fizeram caso e rangeram indignadas. Fiz um mokambo forte e saí para o jardim...Da última vez que ali estivera ainda os arbustos secos tinham flores e as árvores frutos e fiquei muito espantada na minha condição de nova rapariga do campo com toda aquela revolução. O cenário pareceu-me muito desolador e dada que sou a melancolias parei um pouco para pensar nas coisas que passaram, mais as coisas que hão-de vir, um emaranhado de gentes e coisas que me encheu a cabeça ensonada. Passaram-me à frente dos olhos uns flashbacks manhosos dos tempos em que chegada sabe-se lá de onde, aterrei nesta minha terra por empréstimo. Abanei a cabeça, reprovadora, face àquela miúda tão dada a convívios embriagados com a gentes da terra, tão crédula face à promessa de aventuras numa vila fronteiriça e a quem os vocábulos próprios e o sotaque típico pareciam um linguajar exótico de uma Vera Cruz por descobrir. Lembrei-me vagamente, pela minha rica saúde, dos dramas e das fitas originadas pelo efeito novidade da chegada de uma forasteira cheia de boas intenções. Deu-me uma leve saudade dos concertos clandestinos de bandas de covers nas fumarentas caves das sociedades recreativas e dos jantares de cerveja barata e febras na brasa. Recordei sem custo as conversas sobre as personagens da terra, os escândalos e as estórias embaraçosas de uns e outros cujas caras desconhecia. Vieram-me à lembrança as noites quentes de Verão e as deambulações por ruelas cheias de um charme pitoresco e acolhedor, de braço dado e coração cheio com...foi nesse preciso momento que farta de tantas memórias de coisas e gentes não tão distantes quanto isso sacudi insistentemente as imagens que se seguiram com um gesto enérgico da minha mão livre. Parei de pensar porque já se fazia tarde e voltei para dentro de casa, convencida de que, por enquanto, este Alentejo cabe todo no meu quintal.

