sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Espécie de evolução

Estive a olhar para aquela nossa fotografia que nos causa um misto de contentamento e embaraço. Embaraço por sabemos que já fomos assim e contentamento por agora sermos de outra maneira. Pergunto-me se mudou assim tanto para além do corte de cabelo e do estilo de roupa que se limitava a riscas coloridas sob casacos que deixavam um rasto de pelo sintético onde quer que nos roçássemos. Feliz, ou infelizmente, não nos andávamos a roçar em muitos sítios. Se é verdade que o meu cabelo deixou de ser uma mistura entre os New York Dolls e a Madona dos anos oitenta e que descobri vida para além de um par de all stars gastos, também é verdade que não me abandonou o gosto por acessórios dourados e brilhantes nem tu deixaste a tendência para o roxo e o lavanda mais os óculos de armações excêntricas. Podemos dizer que nesse aspecto, sempre nos mantivemos fiéis a nós próprias. Dou o braço a torcer, se houve coisa que estes anos de convivência com gente bem que come bolachas a quinze euros o quilo nos ensinaram, foi sem dúvida um melhor gosto nas indumentárias. Tirando isso e o facto de hoje em dia ser uma pessoa que diz encarnado em vez de vermelho, estes anos de faculdade em pouco corresponderam aos meu sonhos de estudante do secundário de escola dos subúrbios que achava que por volta dos dezoito anos já teria casa no bairro alto, um namorado barbudo e um grupo de amigos intelectuais mas divertidos com quem poderia discutir kafka (sendo esta última parte algo que resolvi acrescentar para pensarem que aos dezasseis anos já era uma pessoa interessante). Escusado será dizer que nada se passou como imaginara e que o mais perto que estou de ter casa própria em Lisboa é aquele colchão que tenho carinhosamente reservado para mim algures em Alvalade. Mas agora que penso, não trocaria as estórias que fui coleccionando, ou as pessoas que conheci, por nenhum grupo de estudantes de artes com queda para a literatura. Bom, na realidade tavez trocasse uma ou duas...
Muita coisa aconteceu, desde a época em que tirámos aquela fotografia e em que o expoente máximo da nossa atitude boémia era bebericar um storia del cafe e falar dos rapazes giros que conhecíamos nas noites loucas das festas académicas ou das nossas aventuras no marretas.
Cafés fecharam, tornámo-nos mais sofisticadas, descobrimos novas formas de assemelhar a nossa vida a um filme indie e eu deixei de dar abraços a desconhecidos quando bebo mais que a conta para passar a fazê-lo somente a gente que conheço bem, ou mais ou menos...Mas, se queres que te diga, continuo a reconhecer-nos perfeitamente e sem esforço, nessas miudas despentadas de blusa às riscas da foto.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

É tarde.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Conta-me Estórias: A vida é um milagre

O bolachas já pedia um espaço de cinema, mais que não seja porque aqui todos gostamos que nos contem estórias...


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Gestão de Expectativas ou A Analogia das bolas de Berlim do Sr João Pinto da praia de Carcavelos

Imagino que o Sr. João Pinto acorde de manhã muito cedo e se levante da cama num salto. Aposto que faz todos os dias a barba, toma banho dia-sim-dia-não e que se demora a saborear o seu pequeno-almoço de sopas de pão da véspera migadas em café com leite, com os olhos perdidos nos azulejos da cozinha. Enquanto isto a sua esposa, a senhora Pinto, acaba de fritar as bolinhas de Berlim que o senhor Pinto leva bem aconchegadas na maleta branca com o seu nome escrito a letras encarnadas para vender aos banhistas da praia de Carcavelos. Tudo pronto, o senhor João dá um beijo na esposa, muito embora eu desconfie que este senhor é mais adepto do açoite carinhoso no rabo, e sai porta fora cantarolando um fadinho do Alfredo Marceneiro ou uma outra música qualquer daquelas que ficam na cabeça. A partir daí já não é preciso imaginar mais nada. Toda a gente sabe que o senhor Pinto corre a praia de Carcavelos de lés a lés a apregoar as suas bolas de Berlim fresquinhas. O que ninguém sabe e nem o próprio Senhor João Pinto desconfia, é que as suas bolas, salvo seja, são a analogia perfeita* para explicar a razão das melancolias quotidianas que nos assolam o espírito por dá cá aquela palha. E que razão é essa, perguntam. E eu respondo, má gestão de expectativas, claro. O nosso problema é que mal nos dizem que algo é bom temos tendência a exagerar nos beneficíos esperados...Tal e qual como acontece quando o senhor João Pinto nos diz que tem as melhores bolas de Berlim da região e bla bla bla e nós aguardamos, pacientemente, esperamos que ele atenda as outras pessoas, faça troco de vinte euros, deite conversa fora com a quarentona do bikini às flores, leve tempos infinitos a procurar os guardanapos, tudo para saborear aquela bola de Berlim com creme que…afinal não é assim tão boa e para mais ainda nos deixa mal dispostos. Se querem ter supresas agradáveis e pôr fim a crises de nervos e choros compulsivos, dores de barriga e nós garganta e todas essas coisas que muito embora tornem a vida mais emocionante e digna de conversa criam uma sensação muito desconfortável que às vezes, simplesmente, não dá jeito nenhum, não acreditem quando vos dizem que algo é muito bom e desconfiem do que vos parece muito interessante para depois no fim ser um bocado parvo e mastigar de boca aberta...O segredo está no cepticismo! No franzir o sobrolho quando alguém vos diz que um filme é muito bom, que vão adorar o jantar ou que gostam muito de Pink Floyd...E dito isto vão lá vá, baixem-me essas expectativas e sejam felizes! Agora, não me venham pedir satisfações quando me encontrarem sentada à beira mar com um ar enjoado e açúcar nos cantos da boca…

*encontrada por alguém que, à semelhança de muito boa gente, não tem nada melhor para fazer do que pensar na vida (característica comum a quase todos os génios)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Num Paço pouco apressado

terça-feira, 29 de junho de 2010

Essa daqui é pra você...
que ainda está a uns bons capítulos de uma àgua de côco.

sábado, 26 de junho de 2010

Espanhol para principiantes

Como qualquer português que se preze também eu estava convencida de que sabia hablar español, por supuesto. Logo eu que sou tão dada a línguas, as estrangeiras e as outras, criada com um pé em Badajoz e um ouvido na Cuarenta FM, entusiasta admiradora de Almodóvar, tapas, cañas e roupa com bolas. Certa de que gesticular efusivamente, pôr uma pose de matadora e elevar o volume de voz acabando todas as palavras com um “sss” arrastado era algo que fazia de mim uma quase nativa da língua de Picasso e Miró. Ainda assim, com o desejo de colmatar eventuais falhas que ainda não estava completamente convencida que possuía, lancei-me na aventura de um curso de espanhol…para principiantes. Arrastando comigo alguém bem mais modesto mas não menos entusiasta que vos poderá assegurar que um curso destes não é para todos. Pois não, é para principiantes, dirá algum engraçadinho. Vale! Mas apenas para principiantes com um perfil muito preciso e especial. A saber, o futuro aprendiz de espanhol inicial nível 1 deverá ser uma daquelas pessoas que acordam às sete da manhã num Sábado, cheios de felicidade e contentamento por estarem vivos que cantam no chuveiro e não se importam mesmo nada de andar de metro aos fins-de-semana com um sorriso na cara e uma predisposição para conversas formadas por algo mais que monossílabos. Deverá ainda, possuir um controlo apertado do riso compulsivo e nervoso e não roncar ou chorar quando confrontado com alunos do género masculino que admitem ler a revista Maria e reviram os olhos cada vez que dizem palavras com uma forte presença do som jjjj (exº. trabajo). É altamente desaconselhado tanto a pessoas sensíveis ao estilo dos outros que não vêm com bons olhos tatuagens estranhas e penteados exóticos, como a pessoas facilmente impressionáveis para quem diferente é sinónimo de interessante mesmo que não seja bem assim. Por último, o possível estudante deverá ser, preferencialmente, esquisitinho com a comida bem como forte ao ponto de não sacrificar as suas suadas sessões de elíptica no ginásio por um hamburguer com tudo.
Se não possuis nenhuma destas características não te aflijas, nós também não.
Mas fica sabendo que se alguma vez alguém te disser que entonces, por díos! aprender espanhol é fácil, esse alguém nunca frequentou um curso de espanhol para principiantes.