Na mesinha de cabeceira amontoam-se os remédios milagrosos que prometem fazer com que pare de tossir, de espirrar e com alguma sorte impedirão que mais lenços se juntem aos outros.
Está um frio gelado que ameaça tornar-me as mãos em dois glaciares se continuar a insistir em escrever estas linhas.
Do andar debaixo sobem distorcidas as músicas dos programas dedicados à época Natalícia. Apresentadores sedentos de solidariedade e alegria e amor, acompanhados pelas grandes estrelas da constelação musical portuguesa, chamam o público sénior a abanar a cabeça para um lado e para o outro, e enquanto este canta sua própria versão da música "White Crhistmas” bailarinas sorridentes de fatos brilhantes feitos à medida desafiam o frio entre piruetas bem ensaiadas.
É claro que não sei precisar nada disto, enfiada que estou entre mantas polares, mas se me permitem sinto-me, do alto da minha experiência de fins-de-semana pré natalícios, no direito de adivinhar. Além disso podia jurar que acabei de ouvir uma voz trémula dizer que no tempo do Salazar não fazia tanto frio pelo que mantenho a minha versão.
A verdade é que não é uma boa altura para se ficar doente, esta. Nem um bom sítio. Aqui de Inverno faz tanto frio como no Verão faz calor, um calor sufocante. Mas se me perguntassem neste momento o que preferia eu, de nariz vermelho responderia sem dúvidas e em voz nasalada, venham de lá esses 40º graus à sombra! Ou não, que eu até sou pessoa para gostar do Inverno. E agora se me dão licença vou ali tomar mais um comprimido e preparar-me para emoções fortes. Este deve ser dos bons, se bem me recordo no folheto informativo referiam possibilidade de alucinações.

