quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Que tal...uma banheira de espuma

Hoje enchi a banheira de sais de banho e água quente e pus-me lá dentro. Resolvi aproveitar devidamente esta pausa forçada só concedida aos mais afoitos que andam à chuva de maga curta e lembro-me de na altura ter pensado que até um tal de Gene Kelly tinha um chapéu na cabeça quando foi a vez dele de enfrentar as intempéries. Deixei-me estar naquele dolce fare niente até os dedos dos pés e das mãos, mais houvessem, enrugarem que nem os de uma centenária e por ali fiquei a ver bolinhas de sabão flutuarem no ar espesso da casa de banho. Pensei muito em quase nada, mais um tanto em coisa alguma enquanto o rádio debitava canções de outros tempos a fazer lembrar ora geladarias americanas azul pastel ora clubes nocturnos fumarentos cheios de vozes negras e profundas, daquelas que hoje com relativo sucesso se vão imitando. Considerei se te teria realmente debaixo da minha pele enquanto desafinada tentava em dó menor esfregar a parte central das costas. Desisti e abandonei-me de novo às bolhas de sabão pensando em como me daria jeito uma mão extra. Dei por mim a tentar lembrar-me, com duas rodelas de abacaxi nos olhos, se havia uma grande probabilidade de ter deixado a porta mal fechada e só muito a custo consegui afastar as insistentes imagens daquela miúda gritante do filme do Hitchcok. Voltei por momentos à contemplação do nada. Quando por fim saí da banheira já tinha lido dois livros, decorado a letra de três canções do Stevie Wonder e pensado de forma critica na actual conjuntura económica. Descontraída olhei-me ao espelho e pensei para comigo em como realmente tinha valido a pena tirar um dia de folga.
Ou isso ou passei o dia inteiro a fazer zapping…assim de repente não me recordo, foi uma das duas.

domingo, 15 de novembro de 2009

Downtown Benfica

Havia um plano, mais ou menos delineado… o sitio e o dia estavam marcados. Comprámos roupa nova, e desprendemo-nos da ideia de conforto com tal naturalidade que nem uma unha encravada constituiu problema ao uso de uns sapatos altos acabados de sair da loja. Tudo em nome da noite desejada. Desdenhámos as competências da nossa companhia, depois de se recusarem a vir buscar-nos. Mas lá fomos contrariadas apanhar o autocarro da carris, sujeitas a adversidades tais como a humidade do ar e as pedras irregulares da calçada. Mas tudo bem… chegámos ao destino. E com a atitude de quem pensa jantar esparguete com bacon tocámos insistentemente à campainha.
A mesa está posta… e não há tachos de alumínio, nem esparguete nem bacon. Surpreendentemente, os copos são de pé alto, há velas de cheiro, há uma travessa com pedaços de fruta, outra com carne, vários molhos e todos os utensílios do fondue harmoniosamente dispostos em cima de uma pequena mesa redonda. Brindámos a clichés ao som de blues… bebemos vinho do porto frutado e pegámos com classe nos copos... foi em Benfica mas podia ter sido num qualquer apartamento de tecto alto em Manhattan.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Tomás (nome fictício)

Por ti trocava as minhas convicções por vantagens a curto prazo.
Esticava os cabelos de caracóis anárquicos em suaves madeixas loiras, que puxaria para trás a cada dois segundos. Por ti, mudava o nome para Carlota, adicionava um Joaquina, mais um, dois, quem sabe até três nomes estrangeiros. E fazia com que me tratassem pelo diminutivo mais o nome mais sugestivo e importante. Por ti, ao teu lado, trocava o riso alarve pelo sorriso aberto, branco, branqueado, brilhante, na minha pele morena de solário. E substituía o subtil pelo sugestivo, trocava-te as voltas, entre insinuações e disfarces, num flirt manejado com arte. Por ti conduzia um smart. Preto, dois lugares, com o labrador pura raça no teu colo, mais a prancha no tejadilho, e prometo, ia a todos os teus treinos de râguebi. Por ti…aos teus pais, escondia o tolo orgulho de crescer nos subúrbios, Cascais! mentiria eu, em tom afectado, quando em coro me perguntassem onde nasci. Por ti, abdicava da cerveja, gelada, e só bebia vodka limão. Por ti punha de lado a ridícula necessidade de ser diferente e aderia ao padrão. Menina boa, rica família, um cavalo. Por ti, e por esse teu jeito desajeitado e preguiçoso de ser, criava uma conta no Facebook, deixava de lado os All-star gastos e só calçava Timberland, Merrel e uns flip-flop bem altos no Verão.
Por ti, fazia isto tudo, ou talvez…não.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

麻雀


Vinte e muitos de Outubro, o mês por excelência da castanha, do encurtar dos dias, de uma melancolia sublime que se sente nos olhares e nos sabores. O calendário marca Outono. Mas parece ainda Verão. Sempre ouvi dizer que um Outubro quente não traz boa coisa. Mas não me queixo.

A noite é bem temperada, tornando-se mesmo ofegante em certos momentos. Manga curta, roupa leve, não destoamos e damos nas vistas. Hong-Kong é o mote. E seguimo-lo (quase) à risca… Digamos que vamos na onda dos olhos em bico. China e Japão para nós, é como Portugal e Espanha para os americanos - a mesma coisa.

A última garfada (os pauzinhos são bons é para prender o cabelo) de mussaka ainda não chegou ao estômago e já estamos em passo acelerado rumo ao metro mais próximo. Começou a corrida. Damos graças pela pontualidade dos outros (também) não ser britânica e por termos uns sapatos de boa qualidade. Chegamos a tempo, o filme ainda não começou! A comunidade chinesa ainda nem se quer entrou.

Sparrow, é o filme. Um filme que tem uma óptima banda sonora. Mas o importante a reter é: se um pardal vos entrar pela janela dentro enxotem-no imediatamente ou poderão acontecer-vos coisas muito más. Foi no mínimo um melodrama surpreendente numa bela noite de Outono.

domingo, 11 de outubro de 2009

Por aqui




segunda-feira, 28 de setembro de 2009

(fuga à) Rotina

E se alguns, numa fase mais turbulenta, andam cabisbaixos e macambúzios, melancólicos até mais não, devido a terríveis quezílias familiares que nos põem a mal com outros e principalmente com nós próprios, tudo por causa de desavenças políticas…outros há que está-me cá a parecer não podiam estar melhor. Falo de uma amiga de cabelos esvoaçantes que flutua pelos corredores da faculdade, alheia, (diz ela) aos olhares sugestivos de certas pessoas, e que, num gesto incompreensível, faz de tudo um pouco para evitar os encontros imediatos com as pessoas certas. No entanto, e se me é possível fazer um reparo, é vê-la ter longas conversas com pessoas com as quais não nos lembraríamos sequer de trocar duas palavras. Mas é assim a minha amiga. Cada um é como cada qual. E qual quê se ela se dá mal com isso. É ver o acaso a trocar-lhe as voltas, o destino, ou como lhe queiram chamar, a fazer-lhe um jeito, as coincidências unidas em torno de um só objectivo: fazer-lhe aquela vontade inconsciente, ou conscientemente ocultada, e ai que chatice lá tem ela de partilhar apontamentos, trabalhos e conversas de ocasião com alguém, aparentemente bastante interessante, que, sabe-se lá porquê, acabou por não desaparecer por um semestre a fim de treinar o seu mandarim. E se isto importa? Sim! Porque todos sabemos como é difícil encontrar um incentivo para nos levantarmos de madrugada, de olhos pequeninos e cabelos desalinhados, despacharmo-nos a custo com a cabeça ainda nalgum sonho mais estranho, esperarmos tempo indeterminado nas paragens, sermos empurrados como gado bovino por entre as portas automáticas dos metropolitanos apinhados de gente, tudo para chegarmos ao mesmo sítio onde inevitavelmente veremos as mesmas pessoas olá-tudo-bem-ta-tudo-e-contigo, e fazermos, com uma outra variante mais louca e inesperada (possível mas muito raro) as mesmas coisas.
E se querem que vos diga hoje até nem foi um mau dia....afinal nem todos se podem gabar de ter comido um empada de porco preto.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Subalternos

Ao que parecia a ordem vinha de cima. De onde, afinal, vêm quase sempre todas as ordens. Mas de cima de onde, perguntei levantando a parte direita do lábio e deixando-a assim durante um bocado para expressar a minha incredulidade e nojo, agravados por cinco horas de espera, e caso tivesse mesmo que ser, eu até nem queria, iminência de conflito. Parecendo adivinhar o que o esperava, o homem dentro da farda de segurança parou de mascar a pastilha olhou para o lado e numa postura de Calimero soltou a máxima de quem recebe ordens de cima, “oh menina, eu só faço o que me mandam, se entra aí alguém eu é que me lixo”. E podia jurar que no fim dessa explicação ainda houve espaço para um repuxar de saliva mas posso ter imaginado, afinal, já eram muitas as horas a fixar paredes e chão alcatifado. Com tais argumentos não tive mesmo alternativa senão levantar-me. As ordens eram claras e precisas, ali, naquele estabelecimento da carris onde sobejava a tensão e escasseavam as cadeiras, ninguém se podia sentar no chão.
Saltando todos os dramas reais do quotidiano inerentes à obtenção de um passe, que ligam os exasperados cidadãos uns aos outros criando laços de afectividade tão fortes como efémeros, e que permitem a senhoras de sessenta e cinco anos dissertar não só sobre o filho e o seu hobbie favorito: tunning de computadores mas também de forma detalhada sobre as suas intervenções cirúrgicas sem qualquer peso na consciência pelo mal que faz ouvir coisas que não nos interessam…foi agradável voltar à capital.

E que gostinho especial o de passear por uma rua Augusta cheia de turistas e estudantes erasmus, entusiasmados e sorridentes ao verem pela primeira vez um rapaz a tocar acordeon com um cãozinho ao ombro, tagarelando no seu sotaque estrangeiro enquanto flutuam despreocupados sobre a calçada, e dar por mim, no meio disto tudo, a desejar sem qualquer ponderação profunda que não se desista do TGV.