quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Subalternos

Ao que parecia a ordem vinha de cima. De onde, afinal, vêm quase sempre todas as ordens. Mas de cima de onde, perguntei levantando a parte direita do lábio e deixando-a assim durante um bocado para expressar a minha incredulidade e nojo, agravados por cinco horas de espera, e caso tivesse mesmo que ser, eu até nem queria, iminência de conflito. Parecendo adivinhar o que o esperava, o homem dentro da farda de segurança parou de mascar a pastilha olhou para o lado e numa postura de Calimero soltou a máxima de quem recebe ordens de cima, “oh menina, eu só faço o que me mandam, se entra aí alguém eu é que me lixo”. E podia jurar que no fim dessa explicação ainda houve espaço para um repuxar de saliva mas posso ter imaginado, afinal, já eram muitas as horas a fixar paredes e chão alcatifado. Com tais argumentos não tive mesmo alternativa senão levantar-me. As ordens eram claras e precisas, ali, naquele estabelecimento da carris onde sobejava a tensão e escasseavam as cadeiras, ninguém se podia sentar no chão.
Saltando todos os dramas reais do quotidiano inerentes à obtenção de um passe, que ligam os exasperados cidadãos uns aos outros criando laços de afectividade tão fortes como efémeros, e que permitem a senhoras de sessenta e cinco anos dissertar não só sobre o filho e o seu hobbie favorito: tunning de computadores mas também de forma detalhada sobre as suas intervenções cirúrgicas sem qualquer peso na consciência pelo mal que faz ouvir coisas que não nos interessam…foi agradável voltar à capital.

E que gostinho especial o de passear por uma rua Augusta cheia de turistas e estudantes erasmus, entusiasmados e sorridentes ao verem pela primeira vez um rapaz a tocar acordeon com um cãozinho ao ombro, tagarelando no seu sotaque estrangeiro enquanto flutuam despreocupados sobre a calçada, e dar por mim, no meio disto tudo, a desejar sem qualquer ponderação profunda que não se desista do TGV.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

...


Perdida no metro, esse espelho da cultura local, entre suecos naturalmente loiros e de olhos azuis, deu-me vontade de pertencer àquela cidade. E ilegalmente sentada no banco azul almofadado, com o meu bilhete de validade expirada na mão, pensei em como seria tão bom iniciar na chamada Veneza do Norte da Europa, uma vida de boémia e intelectual. Tal e qual aquelas pessoas que à superfície da cidade, deambulam de saco de pano ao ombro, máquina fotográfica ao pescoço e livro na mão. Pensei em como seria interessante arranjar uma bicicleta com cesto de verga, pôr lá dentro o gato, mais a toalha de pic-nic aos quadrados e a sandes de salmão fumado, e pedalar, contornando os turistas incautos, até à esplanada mais próxima. Ficar por lá a bebericar uma pilsener e a escrevinhar num caderno pautado frases soltas, ideias brilhantes ou, um pouco de ambição não faz mal a ninguém, a próxima grande obra da literatura europeia. Sim, que isto ao sonhar, acordado ou a dormir, não tem nada que se lhe pôr um freio. Os meus planos eram simples, arrendava um apartamento, na parte mais bonita da cidade, convidava uns amigos a viverem comigo numa casa com mobílias práticas e fáceis de montar IKEA, e era um ver se te avias de noites seguidas de dias agradáveis e estimulantes. Com esta ideia em mente parei na estação de Skanstull, convencida que para ir para a frente com tudo isso bastaria começar a apostar em força na lotaria nacional que a sorte encarregar-se-ia do resto. Até agora nada a registar. Talvez a sorte ache que ainda não estou preparada para deixar para trás as paisagens bucólicas do interior, ou a tão invejada luz da nossa capital mais a sardinha assada e a moamba, para passar a viver numa cidade em que amanhece às 4 da madrugada. Talvez, talvez…E enquanto isso os foguetes rebentam lá fora, a assinalar a festa, que por aqui se quer brava, em que os touros, os toureiros e os civis inconscientes de mão dada com o vinho tinto, são os protagonistas, com fado vadio e música popular como impulsionadores das longas, e por enquanto quentes, noites de Agosto.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Stockholm





segunda-feira, 27 de julho de 2009

Ora desta vez apeteceu-me fazer um desenho

Vamos assumir que esta sou eu, em situações normais.
(olhem para mim tão alegre e sorridente)




Pronto.

Agora...Esta aqui debaixo também sou eu mas desta vez numa situação extraordinária.
(reparem como a minha expressão se altera)



E é assim que a coisa se tem processado nos últimos dias...a minha inspiração sugada, sem dó nem piedade, pelo colorido sistema rodoviário.



quinta-feira, 23 de julho de 2009

Press Play

Faço uma merecida pausa no estudo dos sinais, das cedências e passagens, dos estacionamentos indevidos, e de todas essas matérias de elevado interesse, que, com alguma sorte, farão de mim uma condutora prudente e de pé leve. Uma pausa bem mais pequena que a que fez este blog, onde o pó se acumulou, criando pequenos coelhinhos de cotão, aqui e ali, por baixo de posts antigos. Poderia inventar desculpas, mais ou menos mirabolantes, para o abandono a que remetemos este nosso “espaço”. Poderia até dizer que nada de interessante aconteceu nos últimos tempos, o que seria uma escandalosa mentira…e que além do mais, nunca foi impedimento para que aqui se escrevesse, não fossemos nós adeptas das longas conversas sem assunto. Mas a verdade é que nos tomou de assalto um desinteresse pela escrita, uma espécie de gripe A da criatividade que pôs o Bolachas de quarentena, como se de um autocarro apinhado proveniente de Guadalajara se tratasse. Não nego, não foram poucas as vezes que por aqui vagueei, na esperança de que por magia aparecesse, neste exacto local, um post inteligente e com humor, ou apenas um dos dois vá…
Lamentações à parte, pode-se dizer que voltámos, agora que sabemos que existe pelo menos mais uma pessoa a ler-nos, para além daquele amigo a quem obrigamos uma consulta frequente e de quem ouvimos, deliciadas, os elogios sentidos, em troca de uma ou duas imperiais.
Pode-se esperar, então, um retorno aos dias áureos deste blog…e aos gastos em minis e tremoços.
Mas isso fica para uma próxima…que agora tenho de ir ali decorar limites de velocidade.

sábado, 20 de junho de 2009

La Mala Educacion


Decidi dar uma nova oportunidade a Almodóvar. Depois da sensação de perda de tempo que me tinha deixado “Kika”, achei por bem permitir a este realizador espanhol que me voltasse a surpreender, como tinha feito com “Tudo sobre a minha mãe” e “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Preparada física e psicologicamente para uma sucessão de cenários em cores berrantes e cenas homo-eróticas, prendi os cabelos com uma flor enorme e refastelei-me no sofá da sala com as janelas abertas em par. O calor estava a pedi-las. Durante todo o filme não consegui tirar os olhos do ecrã, muito por culpa, admito-o, de um Gael Garcia Bernal, moreno e semi-nu que se passeava, provocante, entre junkies e travestis mas, também por uma estória, deliciosamente filmada, que em nenhuma circunstância me fez desviar os pensamentos para o que iria fazer a seguir ou o que seria amanhã o almoço…Valeu a pena fazer as pazes com Almodóvar.

domingo, 14 de junho de 2009

Sardinhas & Manjericos


Numa romaria a seco iniciámos mais uma noite memorável, na noite que é desse santo do menino, do hábito e dos casamentos colectivos, padroeiro da nossa Lisboa. A verdade é que tenho um carinho especial por esta noite das marchas e da sardinha, da ginga e da cerveja. Dos abraços apertados dados a pessoas que naturalmente nos desaparecem e por quem sentimos uma saudade momentânea, quando mais magros, mais bonitos ou na mesma, se cruzam com o nosso alter-ego embriagado e sentimentalista. Gosto genuinamente desta noite que se quer popular, e em que há desculpa para conversas familiares com estranhos sobre ensaios do rancho da sociedade recreativa de Arcos de Valdevez, mensagens embaraçosas, danças frenéticas ao som de música ligeira espanhola, conversas brejeiras, gestos abusadores e inofensivas invasões da privacidade alheia bem como todo um rol de situações que, em situações normais, nos deixariam com as mãos a tapar a cara num gesto de vergonha incontrolável. Gosto de toda aquela agitação. Agitação nas ruas, nos outros e em nós próprios, impulsionada por um consumo exagerado de álcool que une trolhas e taxistas, vendedores de sardinhas e estudantes. Gosto do sentimento colectivo de festa e da necessidade geral de dizer mais que a conta, de deixar escapar verdades, vontades ou sentimentos, de meter a pata na poça, o pé na argola. Gosto desta noite por ser uma noite única, e incomparavelmente catártica, em que nos deixamos levar com a música e o reboliço das gentes, empurrados por caminhos apertados, de pés pesados e vontade flutuante, em que só de manhãzinha, chegados a casa de outro, damos conta que trouxemos na mala um conjunto de chávena e prato de uma qualquer marca de café de topo.